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Como valorizar professores por meio da diferenciação de ensino

Jun 12, 2018 | Comentários

Em artigo, pesquisador diz como combinar a tecnologia das plataformas adaptativas e o desenvolvimento pessoal para melhorar a aprendizagem

Em uma época que a tecnologia viabiliza o uso de recursos para direcionar conteúdos, exercícios e avaliações conforme o nível de conhecimento e habilidade de cada aluno, não faz mais sentido pensar a educação sem que se possa diferenciar o ensino de acordo com as diferentes necessidades que existem entre os alunos. Porém, nesse cenário, o papel e a importância do professor pode parecer ficar em segundo plano. Essa percepção, além de não ser real, esconde o enorme potencial de valorização do professor e de melhoria do processo de ensino aprendizagem. Vamos analisar isso mais de perto:

A importância da diferenciação de ensino

A Diferenciação de ensino, como já tratada no Porvir, considera que os alunos são diferentes entre si e que os professores devem considerar essas diferenças para planejar, ministrar e avaliar aulas de modo que todos os alunos atinjam os objetivos de aprendizagem. O professor deve ser capaz de identificar que, dentre a diversidade de interesses, aptidões e perfis de aprendizagem em sala de aula, existem “grupos” de alunos com características semelhantes entre si. Para que todos os alunos atinjam os objetivos de aprendizagem, o professor utiliza diferentes estratégias didáticas conforme os diferentes “grupos” que ele concebeu e orientou.

A tecnologia é um grande facilitador da diferenciação de ensino, principalmente através das plataformas adaptativas. Essas plataformas oferecem diferentes roteiros de conteúdo, exercícios e avaliações de acordo com os resultados que alunos atingem em atividades dinâmicas com testes, vídeos, games, entre outros. Por trás dessa oferta diferenciada de roteiro de atividades, existe uma inteligência e uma agilidade computacional que professores não conseguem oferecer sem tecnologia e que são extremamente valiosas para se endereçar algumas das diferenças normais que se tem em qualquer sala de aula.

Porém, se por um lado a disponibilidade da tecnologia viabiliza um processo de ensino aprendizagem que até então era impossível, por outro lado pode erroneamente sugerir que a tecnologia basta para as melhorias que são necessárias. Antes de se pensar que a tecnologia pode diminuir a importância do papel do professor no processo de ensino aprendizagem, é importante questionar:

– O papel do professor continua sendo necessário quando se usa plataformas adaptativas para se diferenciar o ensino?
– O professor tem potencial de melhorar o processo de ensino diferenciado oferecido por plataformas adaptativas?

Felizmente, a resposta para as duas perguntas acima é sim!

A necessidade e a importância do professor

As plataformas adaptativas conseguem, através de conteúdos previamente programados e algoritmos, sugerir diferentes caminhos de aprendizagem que provém conteúdos e avaliações diferenciadas para os alunos. Porém vale lembrar que, conforme defende uma das maiores especialistas e referência mundial em diferenciação de ensino, Dra. Carol Ann Tomlinson (University of Virginia Curry School of Education), a diferenciação de ensino é necessária pois temos alunos com diferentes níveis de prontidão, interesse e perfil de aprendizagem. Nesse sentido, as plataformas conseguem ofertar diferentes experiências de aprendizagem para alunos com diferentes níveis de habilidade em relação ao objetivo de aprendizagem (especificamente em relação a prontidão). No entanto, ao analisar como as plataformas suprem a necessidade de diferenciar o ensino de acordo com o interesse e o perfil de aprendizagem dos alunos, percebe-se o real valor dos professores frente às plataformas. Será que é razoável admitirmos que todos os alunos terão interesse, afinidade e perfil de aprendizagem semelhantes para utilizar as plataformas de maneira efetiva?

O papel do professor na diferenciação

São somente os professores que conseguem identificar os casos em que o nível de interesse e o perfil de aprendizagem dos alunos acabam sendo contraproducentes ao se utilizar uma plataforma adaptativa. De maneira mais direta: cabe ao professor identificar e elaborar diferentes estratégias nesses casos. É o professor que está no dia-a-dia, conhece o aluno e pode perceber situações reais e momentâneas que um programa não está apto. Esse papel que é a grande oportunidade de valorização e o grande desafio do professor.

Oportunidade e desafio são dois lados da mesma moeda: o professor não é somente um profissional que deve ser capaz de diferenciar o ensino: ele é o elemento inicial e fundamental na diferenciação. Toda e qualquer ação coerente e integrada de diferenciação de ensino, para garantir que todos alunos tenham chances melhores de aprender, passam pelo professor.

Também fica evidente que a diferenciação deve começar pelos professores ao refletirmos: será que eles são todos iguais? Será que dois professores, com diferentes personalidades, fariam as mesmas opções de estratégias didáticas de diferenciação para uma mesma classe? Nesse caso, a resposta para ambas as questões é “não”.

Nem é preciso ser professor para saber que professores com diferentes personalidades têm preferências e hábitos didáticos (padrão costumeiro de atividades em sala) diferentes. De modo ainda mais impactante: professores diferentes têm diferentes maneiras de se relacionar e se conectar com alunos, conforme as personalidades envolvidas.

A qualidade do relacionamento entre professor e aluno, e a consequente qualidade da diferenciação que ele pode prover depende da consciência que ele tem da própria personalidade e de como ela pode impactar na relação professor-aluno, considerando as diferentes personalidades.

Umas das maneiras de se identificar a personalidade é por meio da Teoria dos Tipos Psicológicos, de Carl G. Jung, psicoterapeuta e psicanalista suíço que, nas décadas de 1920 e 1930, descobriu que as diferenças de comportamento entre as pessoas têm um padrão. Essa teoria foi aplicada para adultos, através de um indicador (por Isabel Myers e Katherine Cook Briggs, a partir da década de 1940) e aplicada para crianças (por Dra. Elizabeth Murphy e Charles Meisgeier, a partir da década de 1980). A personalidade, conforme Jung, Myers e Briggs, é definida pela maneira preferida que temos em focar nossa energia no cotidiano, perceber a realidade, tomar decisões e organizar nossa rotina.

O professor que se torna consciente da sua personalidade, percebe que muitos dos desafios de comportamento, e consequentemente de diferenciação e de aprendizagem, estão relacionados a maneira pela qual as suas estratégias em sala de aula dão conta de considerar as diferenças entre a sua personalidade e a dos alunos.

Mais do que isso, ao se tornar consciente, o professor tem a chance de assumir a responsabilidade para propor diferentes soluções para, ao mesmo tempo, diferenciar o ensino, melhorar relações com os alunos e melhorar a aprendizagem. Conforme a Dra. Elizabeth Murphy, uma criança que funciona sistematicamente de uma maneira distinta da sua maneira preferida, pode gerar frustração e estresse que podem ser canalizados para situações e comportamentos distintos e apresentar sintomas diversos e não claramente relacionáveis a prática de ensino. Ao assumirmos que uma plataforma adaptativa dá conta de toda a complexidade da diferenciação, estamos considerando que todos os alunos (e professores) irão interagir e aprender de maneira efetiva com a plataforma, e isso não é verdade.

A valorização considerando a realidade dos professores

Uma plataforma adaptativa é um recurso excepcional para parte da diferenciação de ensino que nossos alunos merecem, porém, somente com uma atuação consciente, atenta e responsável do professor é possível se ter uma diferenciação de ensino que considere a realidade, a personalidade de cada professor e a diversidade de personalidades dos alunos.

Cada professor tem sua realidade pessoal e desafios próprios na sala de aula. A real valorização dos professores por meio da formação continuada, além de um esforço aplicado de autoconhecimento, deve considerar a realidade em sala de aula e direcionar ações práticas para uma diferenciação de ensino que seja realmente possível de ser implementada. Os professores devem estar cientes do impacto que a personalidade pode ter no ensino e aptos a oferecer atividades que respeitem as diferentes personalidades das crianças, oferecendo atividades que equilibrem a dose certa de preferência e desafios para garantir a motivação e o desenvolvimento necessários.

Em 2017, foi desenvolvido um protótipo de Formação Continuada em Ensino Diferenciado por Preferências de Aprendizagem para professores e gestores de seis escolas estaduais do Estado de São Paulo. Mesmo sem o uso de plataformas adaptativas e sem um acompanhamento das escolas após a formação, os resultados foram positivos e elucidativos.

Todos os professores que tiveram a chance de conhecer sua personalidade, perceber o impacto da mesma na relação com os alunos, aplicar práticas simples consagradas de diferenciação baseadas na sua personalidade e nas preferências de aprendizagem dos alunos, perceberam o impacto positivo das práticas e recomendaram o curso para o restante do corpo docente.

O protótipo realizado indicou que, talvez mais do que a disponibilidade de tecnologia e recursos computacionais, a efetiva diferenciação de ensino se dá quando o professor reconhece-se como protagonista de modo abrangente e tem meios próprios para decidir, planejar e continuar aprendendo a melhor maneira de prover aprendizagem para seus alunos. Seja qual for a tecnologia, é o professor que fará a conexão entre a realidade do aluno, o conteúdo da aula e o sentido da aprendizagem. E essa é uma ótima maneira de valorizar o professor!

George R. Stein - Doutorando e mestre em educação/currículo (PUC-SP), pós-graduado em marketing (UC Berkeley), especialista em diferenciação de ensino (Harvard Graduate School of Education) e engenheiro de produção (POLI-USP). Atua como facilitador de aprendizagem em atividades de formação de professores (Secretarias Municipais e Estaduais de Educação em São Paulo e Ceará). Também é professor na FIA (Fundação Instituto de Administração) e na Escola Germinare, além de associado na Reos Partners e conselheiro no Projeto Âncora.

Fonte: Portal Porvir - George R. Stein

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