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Projeto de horta pedagógica motiva crianças a refletir sobre alimentação saudável

Jul 03, 2019 | Comentários

Professora de Curitiba (PR) conta como trabalhou de forma interdisciplinar por meio do plantio de hortaliças


Crédito: lostinbids / iStockPhoto

Sou professora de ciências e matemática em um colégio de Curitiba (PR) onde é muito comum encontrar crianças que nunca mexeram na terra, desconhecem o nome dos vegetais e até mesmo o sabor que eles têm. Outro ponto que chama cada vez mais a atenção é a baixa qualidade nutricional do lanche trazido de casa pelos estudantes. Neste contexto, como forma de trabalhar a interdisciplinaridade e aprendizagem integral, tive a ideia de desenvolver uma horta pedagógica na escola. A intenção era que os estudantes colocassem a mão na massa e, no final do projeto, reconhecessem o valor daquele trabalho, com os frutos produzidos, trabalhando também a educação financeira.

Deste modo, incentivei as crianças a pesquisarem em casa sobre os tipos de agricultura existentes no Brasil. Em complemento à pesquisa, assistimos ao vídeo “A História de João das Alfaces”, produzido pelo Embrapa. Para finalizar o planejamento inicial, trabalhei o tema em sala e, a partir daí, foi feito um debate e, de comum senso, decidimos que o modelo agroflorestal seria utilizado para nossa horta. A sugestão partiu das próprias crianças, que argumentaram ser o mais sustentável.

Após a escolha do modelo agroflorestal, o primeiro passo que propus foi entender o que é biodiversidade observando o bosque que se encontra dentro do colégio. Os estudantes perceberam que na natureza há diversos tipos de vegetais que convivem no mesmo espaço. O colégio conta com um espaço que já vinha sendo utilizado como horta e este foi o local escolhido para cultivarmos nosso projeto.

Um fato curioso é que alguns alunos notaram que em uma parte do espaço havia sido plantada apenas couve e que as folhas estavam tomadas pelos pulgões, então aproveitei para discutir como evitar a proliferação desses insetos nos vegetais com receitas de repelentes naturais. Também havia muitas joaninhas no local e aproveitei para trabalhar cadeia alimentar, pois crianças nesta faixa etária acham que as joaninhas são herbívoras e puderam comprovar na prática qual seu alimento preferido (algumas espécies se alimentam de outros insetos) .

A intenção era que os alunos escolhessem o que seria plantado, tendo em vista uma cartilha da Embrapa que traz a época de plantio de hortaliças e relacioná-la com nosso clima, porém devido ao curto prazo, acabei tendo que fazer esta escolha com outra professora.

Com relação à preparação do solo, contamos com a ajuda de um funcionário responsável pela manutenção da escola. Ele delimitou os canteiros e carpiu o terreno. Na falta de um funcionário assim, acredito que poderia ser feito um mutirão fora do período de aula para preparação do terreno. Iniciamos o cultivo da horta cobrindo o solo com a matéria orgânica disponível no colégio, resgatando com as crianças a função de proteção do solo contra a erosão e ressecamento que ela exerce.

A direção da escola financiou o projeto e quando as mudas e sementes chegaram, os estudantes foram orientados a fazer o plantio e a semeadura. Com muita empolgação, foram plantadas na cenoura, babosa, beterraba, rúcula, alho-poró, abobrinha, alface verde e roxa, tomate, rabanete, couve erva doce e até limoeiros.

Ao longo do desenvolvimento da nossa horta, a cada duas semanas, as crianças acompanharam a germinação das sementes e o crescimento das mudas, retirando as plantas concorrentes e mantendo a reposição da matéria orgânica sob o solo. Também havia uma pessoa responsável pela rega diária.

Em dois meses já tínhamos matéria-prima suficiente para fazer uma salada. Foi uma experiência e tanto, pois a grande maioria das crianças aprovaram. Um efeito muito positivo foi que crianças que apresentavam certa resistência a verduras, foram incentivadas a experimentar e, para nossa surpresa, quase todas aceitaram, comeram e ainda pediram mais.

Finalizando o semestre, era hora da colheita e… de fazermos uma torta de legumes! Como não conseguimos plantar todos os ingredientes, levei os estudantes a uma feira orgânica e aproveitei para trabalhar a educação financeira aplicada a compra dos produtos, trabalhando com sistema monetário e cálculo mental (calcular o troco, por exemplo). Cada estudante levou 5 reais e tivemos que organizar o orçamento para aquisição do restante dos ingredientes para a torta.

Ainda no campo da educação financeira, trabalhei com o objetivo de que os estudantes percebessem a diferença de preço entre os produtos orgânicos e os convencionais e seu custo-benefício. Entrevistamos um produtor rural orgânico que mostrou como é definido o preço dos seus produtos e as crianças aprenderam que antes de pensar em um valor de venda, é preciso calcular quanto se paga de tributos, transporte, funcionário e aluguel da barraca.

Com o desenvolvimento do projeto, percebi gradativamente o desenvolvimento da autonomia das crianças para argumentar. Eles não só repensaram seus hábitos alimentares, como sensibilizam suas famílias a respeito dos problemas apresentados. Também ficou evidente o quanto as crianças aprenderam a respeitar o ambiente, os pequenos produtores e a sua própria saúde.

Suellen Oriana Kricky - Formada em Ciências Biológicas pela PUC-PR com especialização em Educação Ambiental e Conservação da Natureza. Professora há 10 anos, trabalho com estudantes do quarto ao nono ano na rede pública e privada de ensino.

Fonte: Portal Porvir - Suellen Oriana Kricky

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